domingo, 13 de outubro de 2019
4º episódio
Beverly Glenn-Copeland, Ever New, … Keyboard Fantasies… , Atlast Records, 1986
Lou Reed, Families, The Bells, Arista, 1979
Chance, Samba de morro, retirado da compilação The Sexual Life Of The Savages, Soul Jazz Records, 2005
Pekka Airaksinen, Sukirti, Buddhas Of Golden Light, O Records, 1984
Ondness, Torre, Not Really Now Not Any More, Holuzam, 2019
K.U.K.L., Moonbath, The Eye, Crass Records, 1984
Midori Takada, Tromp-l’oeil, Through The Looking Glass, RCA Red Seal, 1983
Nicole Mitchell, Cave of Forgotten Spring, Engraved in the Wind, Rogueart, 2013
Maxxxbass, Untitled (track 6), Gone Fishing, L.I.E.S (Long Island Electrical Systems), 2018
The Space Lady, Major Tom, The Space Lady Greatests Hits, Night School, 2013
David Bowie, Heathen (The Rays), Heathen, Columbia, 2002
Loose Joints (Arthur Russel/Steven D’Acquisto), Is It All Over My Face (Larry Levan Mix), retirado da compilação The World Of Arthur Russell, Soul Jazz Records, 2004
Meredith Monk, Traveling, Dolmen Music, ECM Records, 1981
Joni Mitchell, Boths Sides, Now, Clouds, Reprise Records, 1969
terça-feira, 3 de abril de 2018
3º episódio
Alice Coltrane . Keshava Murahara, Divine Songs, Avatar Book Institute, 1987
Laibach, Across the universe, Let it be, Mute, 1988, tema original dos Beatles
Thor & friends . Mouse Mouse, The Subversive Nature of Kindness, LM Dupli-Cation, 2017
The Durruti Column. For Belgian Friend, LC, 1980, retirado da reedição da Factory Benelux, 2016
Grandmaster Flash & The Furious Five . The Message, Grandmaster Flash & The Furious Five, Sugar Hill Records, 1983
Djamal . Revolução (Agora!), Abram Espaço, BMG Portugal, 1997
Chavela Vargas . Somos, Somos, WEA, 1996
Niña de la puebla . Los Campallineros, gravação e ano incertos, retirado da compilação The Essential Guide, Music Brokers, 2007
Pixies . Evil Hearted you, Planet Of Sound, 4AD, 1991, retirado da compilação Complete ‘B’ sides, 4AD, 2001, tema original dos Yardbirds cantado em inglês
Iggy Pop . Long Distance, Avenue B, Virgin, 1999
Sallim . As minhas gavetas, Isula, Cafetra Records, 2016
Gal Costa . Passarinho, Índia, Philips, 1973
Sade . Smooth Operator, Diamond Life, EPIC, 1984
Paulino Semedo e Vicente Alvarega avec la participation du groupe Nhakus . Noa Presta, edição e data desconhecidas
Marku Ribas . Colcha de retalhos, Barrankeiro, Philips, 1978
Jun Togawa . ある晴れた日, Kyokuto Ian Shoka, Yen Records,1985
Prince and the Revolution . Purple Rain, Purple Rain, Warner Bros Records, 1984
quarta-feira, 7 de março de 2018
2º episódio
GAC . Cantiga sem maneiras, Pois Canté, Vozes Na Luta, 1976
Popol Vuh . Hosianna Mantra, Hossiana Mantra, Pilz, 1972
Fausto . Lembra-me um sonho lindo, Por Este Rio Acima, Triângulo, 1982
Grouper . Fishing Bird (Empty Gutted In The Evening Breeze), Dragging A Dead Deer Up A Hill, Type, 2008, retirado da reedição da Kranky de 2013
Tim maia . Preciso aprender a ser só, Tim Maia, Polydor, 1971
Neil Young . On the beach, On the beach, Reprise Records, 1974
Vincent Gallo . The way it is waltz, Recordings Of Music For Film, Warp Records, 2002
Kuniyuki Takahashi . Drawing Seeds, Early Tape Works (1986 - 1993) Vol. 1, Music From Memory, 2018
Laurel Halo . Airsick, Quarantine, Hyperdub, 2012
Louisa Mark . Caught you in a lie, Caught you in a lie, Safari Records, 1975 retirado da compilação Harmony, Melody & Style (Lovers Rock In The UK 1975-1992), Soul Jazz Records, 2012
David Bowie . It’s gonna be me, 1975 retirado de Young Americans, Rykodisc / EMI, 1991
Nico . Afraid, Desertshore, Reprise Records, 1970
NiedoWierzanie . Illusions, Tous les chemins de mon pays, URUBU TAPES, 2018
Norberto Lobo . Figueira, Muxama, Three:four Records, 2016
Travadinha . Blimundo, Feiticeira de cor morena, Associação De Amizade Portugal - Cabo Verde / Associação Caboverdeana, 1986
Von calhau! . O Caminho Da Cabra, Quadrologia Pentacónica, Rafflesia, 2011
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
The Residents: antropofagia nos Estados Unidos em 76
O que os The Residents propunham em 1976, com este disco lançado pela Ralph Records era uma ideia antropofágica de intervencionar o Top 40 dos E.U.A e o resultado foi este álbum. (Double shot) Of my baby’s love dos americanos The Swinging Medallions, é uma música solarengamente adolescente. Woke up this morning, my head was so bad/ The worst hangover that I ever had, no disco dos The Residents é cantado por um coro ressacado, o enjoo é tão enfatizado que a sensação é a de uma grande vertigem, uma insuportável dor de cabeça, um arrastado sofrimento. A náusea e decadência, são aliás sentimentos que nos vão acompanhando ao longo de todo o disco. Na versão de Light my fire dos The Doors há a repetição do refrão dessa canção por uma voz masculina completamente decrépita, com um acompanhamento musical característico da imagética relacionada aos circos decadentes. Qualquer sexualidade que pudesse emanar da voz e do corpo de Jim Morrison é aqui aniquilada, temos antes um homem caduco que num tom superior ordena Come on baby light my fire, come on baby light my fire, mas que na verdade o que diz, soa mais a uma imploração vomitada e agressiva, de quem, numa última tentativa de provar as suas faculdades sexuais, o que acaba por nos mostrar é a sua humilhante situação de perda da sexualidade. Faz-nos imaginar um corpo arruinado e rejeitado. Se havia sensualidade nessa música os The Residents dão-nos bizarria e fealdade. Também a música, In a Gadda da Vida dos Iron Butterfly, uma banda hard-rock psicadélica, é transformada em música punk, e o que o punk tem de rude e áspero está nesta versão, a voz tem o atrito, a bateria tem a velocidade e precisão, quase roça o hard-core, o crust, ou alguns desvios musicalmente ainda mais agressivos da música punk. O que fica é de novo o enjoo, a decrepitude que percorre as duas músicas que compõem o álbum. A ligar todos os trechos de músicas está um emaranhado de tecidos sonoros, através do qual se ligam todas as versões das músicas que foram alvo de apropriação por parte dos The Residents, contribuindo esses interlúdios para que o disco soe familiar e totalmente alien ao mesmo tempo (1) . Esses arranjos, sejam eles samples de metralhadoras, acidentes de automóvel, improvisações jazz caóticas que podem fazer lembrar Sun Ra ou o uso de instrumentos musicais de baixa qualidade, são como delicadas membranas que unem as músicas intervencionadas (destruídas) pelos The Residents. Mesmo passados cerca de 35 anos, algumas dessas intervenções podem fazer-nos lembrar algumas práticas na música exploratória contemporânea como são, por exemplo os Hype Williams, que para além de recorrerem a samples de sons das mais variadas situações quotidianas e da cultura pop, como jogos de consolas fazem, também eles, uma apropriação de outras músicas, distorcendo-as e decompondo-as para a criação de novas, e também nos seus álbuns (principalmente nos primeiros) há um arrastamento, quase uma suspensão do tempo que vai decorrendo lentamente, mas em vez da cacofonia agressiva do The Third Reich’N Roll ainda que se sinta um arrastamento, nos Hype Williams há uma óbvia ambiência fumegante, quase adocicada onde são reciclados os anos 80, 90 e o advento da cultura pop a uma escala global associada a essas décadas. Parece-me que os The Residents abriram as portas a novas sonoridades, recorrendo ao uso da música popular parodiando-a, destruindo-a regurgitando uma nova maneira de pensar a música fora dos círculos ligados à teorização musical. Sempre houve nos The Residents uma vontade de fazer música sobre música (2) , e com essa metalinguagem pavimentaram-se novos caminhos em direcção a um entendimento contemporâneo da cultura, há espaço para a auto-referencialidade, e também para uma desejável auto-crítica. Mas, e é aqui que julgo que os The Residents são importantes, apesar de lidarem com assuntos sobre a ideia de música como algo que pode e deve questionar os seus limites, eles fizeram isso com a música proveniente da cultura popular e com humor, desenvolvendo as suas investigações musicais usando os modelos que adoptaram dessa mesma cultura de massas, e a sua criação foi mostrada não apenas dentro dos círculos intelectualizados, mas nos circuitos da cultura popular, replicando essas estratégias de marketing e divulgação, mas por causa da sua criatividade, espírito vanguardista de não alinhamento e principalmente, por causa da sua música difícil, diferenciaram-se dos ícones Pop comuns. São exemplos da replicação das estruturas basilares da Pop os concertos públicos, os discos, a criação de uma identidade/marca que os promovia e sobretudo a invenção de quatro personagens, à imagem de várias bandas da cultura popular, como os Beatles ou os Rolling Stones (sempre na mira dos The Residents, entre outros) que os admiradores podem idolatrar, sendo que os The Residents trocaram um corpo por um olho gigante na cabeça e por um smoking, imagem que foi sendo alterada ao longo do tempo, e, julgo eu, foi esta ausência de um corpo visível e reconhecível, o anonimato dos artistas que permitiu que os The Residents pudessem continuar ainda hoje com o seu trabalho, porque de facto qualquer pessoa pode tomar o lugar do anterior nesta banda, e nenhum posto é irrevogável, sendo assim o projecto (colectivo?) pode continuar. Este disco, apresenta-se também como uma clara crítica à subversão da revolta que se profetizou com o aparecimento do rock’n roll, o sistema absorveu a juventude e integrou-a, juntamente com as suas manifestações culturais, num sistema capitalista pasmacento e confortável, encabeçado por algumas solarengas bandas de surf e garage-rock.
Podemos ver na capa deste disco o cartoon Dick Clark vestido com uma farda nazi e jovens casais com a cara de Adolf Hitler a dançar em seu redor. Uma imagem cómica do controlo das massas pela música convencionada e dentro das regras. Uma ilustração maquiavélica mas bem humorada do totalitarismo cultural. Se ouvíssemos de seguida as músicas originais que foram torcidadas pelos The Residents neste disco, provavelmente teríamos uma festa com música dos anos 60 divertida, que ainda hoje nos diverte, mas o que eles fizeram foi pegar nessa ingénua vontade de aparentemente viver sem preocupações, fomentada nos EUA (apesar da guerra do Vietnam e dos graves conflitos sociais internos, como a segregação racial e as diferenças abismais entre classes por exemplo) e transformar tudo isso num avassalador caos musical obscuro e indisposto. Exactamente por todas estas questões ligadas à crítica da cultura de massas e aos aspectos socio-políticos inerentes, juntando-lhes a complexidade rítmica e de texturas sonoras faz dos The Residents e deste disco, The Third Reich’N Roll, uma obra que merece ser ouvida e compreendida com toda a atenção e seriedade, apesar de toda a carga cómica e satírica que sempre foi constante neste projecto.
publicado originalmente na publicação O Príncipio em Novembro de 2013
1 POUNCEY, Edwin, The Primer: The Residents in The Wire, nº 204, Londres, Fevereiro 2001, p. 45
2 http://www.residents.com/historical4/classic/page11/page11.php
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Matana Roberts: As imagens e a música

Este foi, provavelmente, o primeiro disco de jazz que ouvi a sério. A minha escola musical foi outra, a do rock e dos seus desvios mais ou menos previsíveis. Naquela altura, estava sedento de encontrar música que falasse de questões relacionadas com a problemática da discriminação racial, feita por quem a sente de maneira directa. Música que soasse a isso (para além da música tradicional e popular: folk music de outras latitudes que volta e meia escuto e colecciono). ¶ O rock que ouvia não me permitia encontrar isso. Algo me dizia que poderia encontrar essa energia no jazz. Foi isso que Matana Roberts me proporcionou: a aproximação a uma linguagem que eu desconhecia (e continuo a desconhecer na verdade). Daí para a frente, fui escavando, encontrando aqui e ali, quando me era possível, outras luzes com as quais vou sentindo empatia e que me acompanham musical e eticamente. ¶ Mas o que é que uma pessoa do sexo masculino, caucasiana, de 29 anos, nascida numa zona rural de um país no cú da Europa pode procurar na música jazz? Com que legitimidade pode ela querer meter-se nessa trincheira? O que é que tem a ver com as reivindicações propostas pela música jazz enquanto música potencialmente politizada? Tudo. ¶ Tem tudo a ver, quanto tem a ver com outras reivindicações relacionadas com problemáticas como as de classe, sexualidade, sexismo, xenofobia, homofobia, etc… (que se cruzam entre si). Toda a música pode ser um canal para falar e tentar compreender questões discriminatórias, de todos os tipos. O indivíduo (aparentemente) privilegiado tem o direito (até tem é o dever!) de ouvir esta música, porque ela, ao falar de descriminação racial, tem a capacidade de também espelhar todos os tipos de descriminação e todos os tipos de opressão. ¶ Não sou afro-descendente (embora sejamos todos), nem sou mulher. Muito do que a música de Matana Roberts convoca é a história da condição dos afro-descendentes e questões ligadas ao género e à objectificação feminina. Toda a raiva, toda a consternação que possa ser veiculada para e pela sua música, eu não a consigo sentir directamente porque não sou alvo directo dessa discriminação. Mas sou alvo de outras e sou totalmente solidário com as suas causas, pois sinto que a máquina que oprime o Outro é a mesma que oprime a mim. Por outras razões, numa outra escala, de maneira diferente, claro, mas parece que é a mesma. Não vivo numa redoma ou numa torre de marfim e não me posso demitir de observar e constatar o que o Outro sente porque faço parte do mesmo meio que o Outro, consigo partilhar a sua revolta. ¶ A minha intenção não é ser paternalista, é apenas clarificar que não podemos sentir igualmente porque não somos iguais. O que não significa que nos sejam vedadas as mesmas oportunidades, os mesmo direitos. Não significa que não possamos lutar juntos, que não nos possamos encontrar no mesmo esforço. ¶ De facto, o tema da escravatura é um tema que reverbera até hoje, não só nos Estados Unidos, mas também um pouco por todo o mundo colonizado/colonizador. Todos nós conhecemos a maneira como a Europa colonizadora estropiou e espoliou os Novos Mundos, como tão bem observou Tuiavii: ¶ Por mim não me espantaria muito que o Papalagui nos tivesse trazido o Evangelho à laia de mercadoria, em troca dos nossos frutos e da mais bela e maior parte da nossa terra, da qual se apropriou. (1) ¶ As consequências são visíveis e só não as vê quem não quer, só as não admite quem não quer. Todos devemos ter noção de que vivemos numa sociedade segregacionista, mesmo quando não se autodenomina assim. Basta olhar para quem ocupa determinados postos de trabalho, para a maneira como as cidades são organizadas e para quais áreas são destinadas cada uma das camadas sociais. Tudo parece estar organizado e estratificado, como se vivêssemos numa sociedade oficialmente segregacionista. Mesmo que, oficialmente, a escravatura tenha sido abolida em 1863 nos Estados Unidos; o Apartheid, na África do Sul, terminou apenas em 1990; e as antigas colónias portuguesas tiveram que sangrar numa guerra para obterem a sua independência até 1974, por exemplo. ¶ Ainda que hoje tenha sido eleito um presidente afro-americano nos EUA, os traumas da escravatura ainda ecoam na nossa sociedade, e Matana Roberts fala sobre isso: ¶ O facto de que há uma mulher na Casa Branca, que é descendente de escravos do Sul dos Estados Unidos deixa-me mesmo perplexa. (2) ¶ Sobre esta questão, Matana Roberts aprofunda mais e diz: a eleição de Obama foi um enorme passo para a América, e um enorme passo para a inclusão da história Afro-Americana nesse processo. Mas agora levanta-se a questão de onde é que os artistas Afro-Americanos devem pôr esse foco criativo que vem de trás… Alguns assuntos com que os nossos antepassados lidaram estão ainda, obviamente, infelizmente presentes, mas [agora existe aí] uma profundidade que pode ir além das ideias referentes apenas à comunidade Afro-Americana. Isto está a abrir um outro ponto de vista para que possamos usar a nossa história como uma forma de mostrar a outras pessoas que lidam com uma reciclagem do que nós talvez tivemos de lidar e, em certo sentido, [estão] a lidar também. Estou a falar principalmente de imigração, direitos LGBT e tráfico humano. Estes são exemplos de actos de registo histórico meramente a repetirem-se a si próprios. (3) ¶ De facto a eleição de Obama para presidente dos Estados Unidos foi um grande passo para a inclusão da comunidade Afro-Americana, no entendimento da história dos EUA, mas isso não veio resolver os problemas segregacionistas dessa sociedade, que são problemas de uma profundidade e complexidade tal que não seria um só homem a resolve-los. ¶ Esses problemas agudizam-se à medida que se agudiza a crise do capitalismo, prova disso são os protestos por parte das comunidades Afro-Americanas aquando dos assassínios cometidos pela polícia de jovens negros nos últimos meses (protestos em que a própria artista esteve envolvida). A violência policial empregada nesses casos faz lembrar a dos anos 60 e estas lutas parecem tão pertinentes como as dos Black Panthers nessas décadas. ¶ A eleição de Obama é um marco importante na história dos EUA e isso é um passo gigante que tende a forçar a inclusão oficial da comunidade Afro-Americana nesse processo de transformação histórica (indiscutivelmente que é), mas a verdade é que a sociedade norte-americana não acompanhou esse passo, e as crises sociais internas e a destabilização internacional provocada pelos interesses económicos dos EUA parecem-me ser o reflexo disso. ¶ De facto, admiro imenso a clarividência com que Matana Robets avalia a situação do seu país, que se reflecte também no seu interesse e na a investigação sobre sua genealogia familiar, que conseguiu estruturar com o auxílio dos recibos de venda dos seus antepassados em leilões. Isso é perturbador e diz muito sobre os pilares deste país, e como as coisas puderam ser montadas numa maneira muito particular que deixou tantos de fora. (4) ¶ Um facto interessante, enunciado pela artista no texto a cima, é a capacidade que a arte engajada nas questões da herança Afro-Americana tem de conseguir apontar a mira desse foco criativo herdado para outras direcções – por um lado, chega ao Outro falando da sua herança e, por outro, fala de questões relacionadas com a herança do Outro falando da sua. ¶ Quando se nomeiam dois tipos de descriminação, como racismo e o sexismo, presentes no trabalho de Matana Roberts, não se pode simplesmente reduzi-lo a isso, porque a sua prática não se fecha nestas duas matérias. O interesse do seu trabalho adensa-se quanto mais todos estes tipos de descriminação se entrecruzam, se fundem, e ao falar da escravatura negra do séc. XVIII, Matana Roberts fala também noutros tipos de escravatura no séc. XXI, como a artista refere na entrevista à revista Wire: ¶ Podes usar estas estórias e estas narrativas como uma forma de expressares um passado mas também um presente. E, o que é realmente interessante, o que eu espero conseguir é transformar o trabalho em algo mais, é usá-lo como uma plataforma [para abordar] estas outras formas de escravatura que prevalecem. O tráfico sexual, por exemplo, só em Nova York, é um problema enorme. Os problemas com a imigração estão realmente a transformar os imigrantes em servos indigentes ou, em alguns casos, mesmo em escravos. Então, estou a tentar encontrar novas maneiras de falar sobre estas coisas, de trazer mais atenção para estas outras coisas porque eu sou descendente dessa indústria. É preocupante, é fascinante e é uma história que me dá um certo sentido de compasso e direcção. (5) ¶ Matana fala de Nova York, mas podemos enumerar casos idênticos em Portugal, como a escravatura laboral de imigrantes romenos, moldavos, nepaleses, etc, na apanha da azeitona. Ou, por exemplo, segundo os dados da Observatório do Tráfico de Seres Humanos em Portugal, em 2014, foram identificados cerca de 182 presumíveis vítimas de tráfico humano, das quais 86 eram vítimas de exploração sexual (6), e estes são os casos identificados, pois todos sabemos que o problema é muito mais profundo. ¶ O trabalho de Matana Roberts reveste-se então dessa possibilidade de ser o reflexo do Outro, ou, convocando aqui Albert Ayler para ilustrar esta ideia falando sobre jazz: ¶ A música negra não diz respeito a brancos ou a negros porque é do nosso povo, do universo, não tem donos… (7) ¶ Apesar dessa característica de alteridade, o trabalho de Matana parte indubitavelmente da sua herança cultural, política, musical, familiar e emocional. No disco Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile temos acesso a leituras de Matana a partir de entrevistas feitas à sua avó, que contam relatos da vida quotidiana inserida numa comunidade do Mississippi, estado do Sul dos EUA: ¶ (…) frio, velas, algodão, Camden, Mississippi / o mais velho era o Willie May, eu sou a mais nova, abençoada Emma, só o mais velho e a mais nova ainda estão vivos, todos os outros estão mortos / a mãe e o pai eram rigorosos, não trabalhavam ao Domingo, era dia santo / às vezes sinto-me como uma criança sem mãe / Se vou morrer quando estiver acordada, Peço ao Senhor para levar a minha alma / o Willie May e eu saltávamos à corda e jogávamos à bola e fazíamos vestidos com folhas, bolos de lama e tartes de lama / (…) / e jogávamos ao berlinde / há certas coisas que eu não te posso dizer, querida / melancias, pêssegos e ameixas e cerejas e damascos / melancias, pêssegos, ameixas, cerejas, damascos / Pêras no pomar / (…) mas às vezes não chovia e nós usávamos a água da chuva para tudo, e nessa altura tínhamos um poço, nessa altura tínhamos uma bomba de água / Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome / não gostavam de pessoas negras no hospital / sabes, podias usar um quarto / mas nenhuma enfermeira te ia atender / (…) / há certas coisas que eu não te posso dizer, querida (…). (8) ¶ Na mesma música há também um trecho do discurso de Fannie Lou Hamme, feito em 1968 na Convenção Nacional Democrática, que é bastante ilustrativo da brutalidade policial sobre os indivíduos afro-americanos: ¶ Fui colocada numa cela com uma jovem mulher chamada Miss Ivesta Simpson. Depois de ser colocada na cela comecei a ouvir sons de pancadas e gritos. Eu podia ouvir os sons de pancadas e gritos horríveis. E eu podia ouvir alguém dizer: “Podes dizer ’Sim, senhor’, preta? Podes dizer ‘Sim, senhor ‘?” E eles diziam outros nomes horríveis. Ela dizia: “Sim, eu posso dizer ‘Sim, senhor’.”Então, vá, diz isso.” Ela disse: “Eu não o conheço bem o suficiente.” E eles bateram-lhe… (9) ¶ Esta prática de mistura de várias referências pessoais e políticas, populares e eruditas, tanto na música como nas letras, demonstra bem a horizontalidade com que a artista trabalha as várias referências que aparentemente podem ser divergentes ou incompatíveis. Então, nestes discos, aparecem discursos de Malcolm X misturados com o canto das aves e falas de Gertrude, uma sem-abrigo de Jackson, a voz de um tenor com canções populares, infantis e free-jazz. A música de Matana Roberts propõe um encontro de várias práticas de forma igualitária, e a própria artista define o seu processo de trabalho como panoramic sound quilting (10), que, traduzindo (muito) livremente, seria algo como uma colcha de som panorâmica(?). ¶ Tradição familiar recuperada por Matana, o seu trabalho é construído como uma colcha de retalhos, como se cada música, cada imagem fosse a conjugação de vários fragmentos, retalhos que a artista vai guardando, recuperando ou construindo, e que depois, juntos, são uma coisa maior, mais complexa, mais forte, mais robusta também, mas alargada, aberta, daí panorâmica. São um documento histórico vivo (11). ¶ Aqui poderíamos também recuperar a ideia do respigador. A artista constrói o seu trabalho como uma respigadora de sons e imagens, um pouco como Agnés Varda fez com os pequenos vídeos que resultaram no belíssimo filme, A respigadora e os respigadores. Nos três capítulos do ciclo Coin Coin, é notável uma composição a partir de vários trechos, fragmentos. No primeiro capítulo, Gens de Couleur Libres, encontramos uma mistura sonora de Art Ensemble of Chicago com (talvez improváveis) Swans (em discos como Soundtracks for the blind, devido aos drones e crescendos de tensão presentes em algumas músicas do disco de Matana) tudo mesclado com gritos e choros, simulando (talvez mesmo sentindo) a dor dos escravos negros do séc. XVIII. ¶ No segundo capítulo, Mississippi Moonchile, Matana reúne novamente um conjunto de músicos, mas cria um disco mais luminoso, cheio de dor também, mas com um tom esperançoso. Há momentos de luz, o saxofone também embala, não fere só, e depois há a presença de um tenor que canta numa simbiose perfeita, que eu nunca tinha imaginado possível entre o jazz, a música experimental e a música dita lírica. ¶ No último capítulo editado, River Run Thee, Matana está sozinha. Esse é, quanto a mim, o mais obscuro de todos os três. Há presença de instrumentos electrónicos, samples de ambientes exteriores e conversas, depoimentos políticos, gravações de melodias infantis. Mas há sempre um ruído quase claustrofóbico que oprime, podendo sentir-se de facto um mau estar que eu interpreto como próprio da conjuntura política e social. Apesar da artista referir que tem esperança no futuro, este último capítulo, o terceiro (no total serão 12), a meu ver, é o mais desencantado, o mais sombrio, triste até.
Na capa deste disco, vemos a cara de uma jovem afro-descendente. O olhar cabisbaixo, mas penetrante, faz lembrar os rostos das ilustrações de Emory Douglas para o jornal do partido Black Panthers. Se as pessoas desenhadas por Douglas têm o rosto cabisbaixo não é por subserviência, parece-me que têm mais a ver com uma raiva contida que está prestes a rebentar. Não fosse a capa do disco cortar a jovem pelo peito, poderíamos imaginar que também ela tem armas na mão, uma vassoura, uma catana, uma lança. De qualquer maneira, não me parece que Matana Roberts esteja a apelar à luta violenta, mas também ela apela à luta, a um compromisso, que seja pessoal e/ou íntimo, é um compromisso: ao comentar a música Libation For Mr Brown: Bid Em In, a artista fala dessa espécie de obrigação histórica, esse compromisso ético e impossível de afastar para com os seus antepassados: ¶ (…) a minha vida é muito boa, não teria possibilidade de fazer o que faço, e o privilégio e os recursos que tenho para fazer arte, se não fossem as licitações dessas pessoas. Posiciono-me do lado de tantas pessoas que nunca tiveram a possibilidade de se expressar a si próprias. Se estas coisas não tivessem acontecido, o que é que me teria acontecido a mim? Onde estaria eu? (12) ¶ Ao olhar para a arte de Matana Roberts, podemos fazer inúmeras ligações a outros artistas, como por exemplo Kara Walker. Embora formalmente os seus trabalho não sejam próximos, Kara Wlaker também trabalha sobre a herança da cultura afro-americana, convocando essa iconografia, presente em contos populares, em músicas, em gravuras, para expor a violência e a desumanização de que foram alvo as comunidades afro-descendentes nos Estados Unidos da América ao longo do período Antebellum (antes da guerra) e da Guerra Civil (e não só).
Essa desumanização pode encontrar-se nas suas silhuetas, pelas quais as mulheres negras são equiparadas a cavalos de corrida. Crianças sofrem mutações ao transformarem-se em jacarés, para não falar da constante caricaturização e exagero físico incidindo comumente na genitália, sendo que em vários trabalhos desta artista podemos ver pessoas a ser usadas como objecto sexual. Toda esta construção imagética ainda perdura, e é comum africanos serem representados desta maneira, da banda desenhada às embalagens de café, cevada, chocolates, etc. ¶ Num dos posters que acompanham o disco Coin Coin Chapter Three: River Run Thee, encontramos uma colagem com aquilo que parece um postal de uma mulher Afro-Americana numa cozinha a cuidar de alimentos, imagem que corresponde ao arquétipo das mulheres afro-descendentes remetidas para o papel de empregada doméstica subserviente. Nesse mesmo poster, como se fosse sangue, vemos sobrepostas impressões de mãos a vermelho. Mas o universo de Matana Roberts não se fecha em categorizações, e as colagens que encontramos no outro poster deste disco abrem-se a outras situações e personagens que não somente afro-descendentes. ¶ Encontramos recortes de uma pintura de estivadores ou amarradores (mulheres e homens), pedras funerárias com flores, uma jovem que sorri algures na década de 1920, gráficos de cotações da bolsa, uma colagem onde se encontram imagens quotidianas de pessoas que posam ociosamente, e outras que trabalham, como se Matana Roberts tentasse reunir todos aqueles que porventura poderiam reescrever a História de uma outra maneira, uma História feita por outras Estórias individuais, anónimas. A História daqueles que não foram incluídos na História, e dos que sofrem as consequências políticas, sociais, culturais da escrita oficial da História.
As imagens que povoam as colagem de Matana são como pontos que podem ser unidos para a construção de novas constelações, abrindo possibilidades de contar uma nova Estória, numa sensibilidade cósmica que se reflecte numa espécie de estruturação e compreensão universal e até transcendental da realidade porque tem noção dos problemas do real. Mas apela a uma visão alargada, talvez espiritual, dos mesmos, não porque assume a conjuntura actual como o capricho de uma qualquer divindade, antes porque, tendo noção das causas e dos seus actores, apela a uma compreensão íntima/intimista dessas causas, pois essa compreensão tem de ser interiorizada por cada um. ¶ Cada qual, com a sua sensibilidade diferenciada, deve perceber que o poder sobre o outro é uma coisa passageira, que mais valerá compreender o vazio em que estamos e tentar fazer um pouco, que seja, desse nada. E, nesta abertura, há uma espécie de constelações/colagens de pendor espiritualista e universalista (não confundir com espírita, pois do que falamos é de espírito enquanto anima, enquanto sinergia intocável que congrega, que torna complexo, completo numa organicidade própria do caos, sendo intocável e não verbalizável, essa anima pode torna-se visível nas imagens apresentadas). como o trabalho do artista António Poppe, que, também ele, nas suas colagens e (re)colecções, vai organizando o caos, dando-lhe forma, uma forma orgânica e mutável, horizontal na escolha dos elementos.
Nos trabalhos deste artista as imagens da pintura clássica europeia estão ao mesmo nível dos corais e das conchas, as máscaras africanas ao mesmo nível da poesia hindu, a escrita (encriptada?) ao mesmo nível das fotografias pessoais do artista. Tudo parece confluir numa ordem universal não monolítica porque flui, porque jorra, que celebra a diversidade e a co-existência. Abrindo-se e dirigindo-se ao Outro. Esta vontade de se dirigir e dialogar com o Mundo é como energia em movimento que também é constante no trabalho de Matana Roberts, é uma oferta de si ao Mundo, ao Outro, mas num diálogo difícil, mágico, secreto, aberto também ele às singularidades de cada um. Termino este texto com um poema de uma poetisa muito cara a Matana, Emily Dickinson: ¶ Esta é a minha carta ao Mundo / Que nunca Me escreveu – / As simples Notícias que a Natureza contou – / Com a sua terna Majestade / A sua Mensagem é entregue / A Mãos que não posso ver – / Pelo Seu amor – Doces – concidadãos – / Fazei de Mim – um terno juízo (13)
publicado originalmente no fanzine Preto no Branco #5 em Janeiro de 2016
1 TUIAVII e SCHEURMANN, Erich, O Papalagui, Discursos de Tuiavii chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, 12ª edição, Antígona, Lisboa, 1990, p. 73
2 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 37
3 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 34
4 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 37
5 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 37
6 http://www.otsh.mai.gov.pt/Noticias/Documents/OTSH_Infografico_TSH_2014.jpg , consultado a 12 de Dezembro de 2015
7 AYLER, Albert citado por BARRETO, Jorge Lima in Grande Música Negra, edições RÉS limitada, Cadernos de teoria e conhecimento 4, Porto, 1975, p. 29
8 ROBERTS, Matana, Was The Sacred Day in Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile, Constellation Records, Montreal, 2013
9 HAMMER, Fanny Lou citada por ROBERTS, Matana in Was The Sacred Day in Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile, Constellation Records, Montreal, 2013
10 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 39
11 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 37
12 ROBERTS, Matana citada por SPICER, Daniel in Chains of the Heart in The Wire, nº 356, Londres, Outubro 2013, p. 37
13 DICKINSON, Emily, Poemas e cartas (Antologia para um recital), Livros Cotovia, Lisboa, 2000
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
A música e as imagens: Laibach
Se me perguntarem se primeiro vieram as imagens ou a música relativamente ao trabalho dos Laibach, eu vou responder que primeiro vieram as imagens, só depois a música, mas nem uma nem outra componente do seu trabalho ficaram apaziguadas dentro de mim. Já tinha ouvido falar dos Laibach, mas só quando foi a exposição dos Irwin na Culturgest em Lisboa, em 2007, chamada Irwin, A história re-construída, é que tive contacto com o universo em que se inseriam. Mais tarde em 2009 na 2ª edição de Residências de Artes Visuais na ZDB o João Alves dos Calhau! voltou a falar-me dos Laibach e da complexidade conceptual dos temas abordados mas, também me chamou à atenção para um problema da sua música, aquilo a que chamou na altura de música musculada, salvo erro. Passados uns meses comprei o meu primeiro disco, Opus Dei.
Os Laibach nasceram na Eslovénia em1980, no mesmo ano da morte de Josip Broz Tito, o líder da guerrilha de resistência anti-nazi, os Partisans, e presidente da então Jugoslávia, nessa altura as clivagens nacionalistas começaram a ter mais impacto e a ser cada vez mas explicitas, culminando uma década mais tarde na guerra da Bósnia e posteriormente do Kosovo. Os Laibach integram-se numa plataforma multidisciplinar chamada NSK, Neue Slowenische Kunst (Nova Arte Eslovena) de que fazem parte os próprios Laibach (música), Irwin (artes visuais), Scipion Nasice Sisters Theatre (artes performativas), New Collective Studio (artes gráficas), Retrovision (vídeo), e o Department of Pure and Applied Philosophy (encarregados de alguma maneira de suportar teoricamente o trabalho dos restantes membros). Como refere Miguel Wandschneider no texto do jornal da exposição anteriormente referida, a sobreidentificação (…) foi uma das estratégias postas em prática no seio do NSK, em especial pelos Laibach. Com forte caracter subversivo, visava a crítica radical dos regimes ditatoriais através da apropriação mimética e do exagero ad absurdum da ideologia e dos rituais do totalitarismo. (1) Essa sobreidentificação e esse uso exagerado dos rituais dos regimes totalitários é uma coisa que me incomoda nos Laibach, e o uso de símbolos nazis ou de obras ligadas à Nazikuntz um entrave para uma aceitação completa da sua música e de todo o seu trabalho. Embora consiga estabelecer alguma ligação com esta imagética, quando apresentada neste modo subvertido, tem de existir um sentido crítico e de alerta muito forte, porque se por vezes a paródia é flagrante ou há uma subversão do uso desses símbolos de maneira clara, outras vezes há, em que sinto que se pode ser levado pela sedução de tais imagens e sinto que se me distraio é como se estivesse a ser cúmplice e complacente das atrocidades cometidas pelos sistemas totalitários que criaram essas imagens e símbolos. Wandschneider escreveu ainda sobre o NSK, mais concretamente sobre os Irwin: A operação de montagem permite a reinterpretação e reactualização dos signos, esvaziando-os do seu conteúdo (significado) politico e ideológico para os revestir novamente de conotações politicas e religiosas (2), e de facto esses signos são muitas vezes justapostos, mas uma cruz suástica é sempre uma cruz suástica e há-de estar na nossa cultura sempre ligada ao nazismo, ela pode é, ao ser associada a outros signos, contaminá-los com o seu significado, mas não perde o próprio significado porque a memória colectiva que temos desse símbolo está ainda conotada com violência, destruição e preconceito, este processo de contaminação é visível por exemplo na pintura dos Irwin, Cruz de 2000, uma sobreposição de signos que ao serem apresentados em conjunto transportam os seus significados entre si, neste trabalho pode denotar-se claramente também a influência de Malevich e das vanguardas russas. Se na capa do disco The Third Reich’n,roll os The Residents, ao usarem suásticas e a figura de Hitler fazem uma clara paródia a este sistema (e para mim, uma comparação ao totalitarismo da cultura de massas norte-americana, escrevi sobre este disco um pequeno texto que foi publicado n’O Princípio) porque a capa apresenta-se cómica e num estilo próximo da PopArt, num tom comercial e descomprometido, para além disso a música é declaradamente cómica, paródica, jocosa e aparentemente apolítica, já os Laibach, por exemplo, ao usarem suásticas formadas por machados cruzados no envelope do disco Opus Dei, que – subversão das subversões, pois sentido que os Laibach conferem à imagem nesta situação é aparentemente pró-nazi– é uma apropriação duma colagem do artista John Heartfield (o seu nome original é Helmut Herzfeld), artista alemão fundador do dadaísmo e militante comunista, autor de outras fotomontagens contra os nazis bastante conhecidas, dão a este símbolo um grafismo afirmativamente austero, intimidatório, diria mesmo acutilante e para acentuarem a carga agressiva juntam a toda esta imagética a música industrial (também ela conotada com uma certa austeridade rítmica).
A aliança de imagens conotadas com sistemas totalitários e de uma sonoridade declaradamente violenta e militarista faz com que nem sempre consiga ter vontade de acompanhar todos os trabalhos dos Laibach pois que essa sobreidentificação, esse exagero dos rituais totalitários (sobre tudo os nazi-fascistas) é um impedimento à minha total aceitação e usufruo dos trabalhos dos Laibach.
Devido ao meu sentimento de confusão, que de resto me parece ser uma das (se não mesmo a essencial) intenções dos Laibach, vou optar por comentar mais profundamente um único álbum, NATO que se refere inteiramente à desintegração da Jugoslávia, a guerra que lhe sucedeu e sobre os interesses económicos e políticos exteriores associados. Ainda que tudo o que envolve a situação da guerra na ex-Jugoslávia me pareça muito confuso e extremamente complexo, como nos deve parecer a todos, este é o álbum dos Laibach que me parece mais interessante porque é o que, na minha opinião, tem a direcção mais definida e mais clara e porque partilho das posições tomadas neste álbum, ou pelo menos tomo-as como próximas das minhas.
A capa do disco em tons de azul e metalizado apresenta uma figura feminina desnudada que me faz lembrar uma mistura das usadas por Mucha com a personagem do robot do filme Metrópolis de Fritz Lang sobreposta com o logotipo da NATO (North Atlantic Treaty Organisation, em português OTAN), remetendo-nos para uma cenário de ficção científica e, de alguma maneira, pós-apocalíptico. Usando a mesma técnica de subversão da música pop que, tomando novamente como exemplo os The Residentes no álbum The Third Reich’n’roll, e os próprios Laibach antes em Opus Dei, neste disco são reinterpretadas várias músicas da pop ocidental sobre o tema da guerra, a colonização cultural, e os medos futuros (5), entre outras Final Countdown (Europe) e In the army now (Status Quo), e foram dadas a essas músicas uma conotação mais bélica e marcial, subvertendo por vezes a intenção original, tanto pelo uso da música como pela alteração das letras: se na versão original dos The Temptations da música War à pergunta Guerra! Para que é que isso é bom? a resposta é: Para absolutamente nada (6), os Laibach na sua versão apresentam inúmeras razões; se na versão original dos Pink Floyd de Dogs o War temos solos de guitarra e saxofone criando um ténue sentimento de empatia pela música, os Laibach dão-nos música techno com laivos de drum’n’bass finalizado a música com coros e arranjos sinfónicos, a voz do vocalista é áspera, dando-nos um sentimento de crueza e agressividade, os ritmos são mecânicos fazendo-nos sentir uma espécie de autómatos; a versão do americano J. D. Loudermilk da música Indian Reservation é alterada para National Reservation e em vez de falar sobre a agressão e aniquilação das comunidades índias nativas dos EUA, os Laibach falam da agressão económica e cultural e dos interesses dos países capitalistas do Ocidente naquela área dos Balcãs, sendo que as estratégias em ambos os casos são as mesmas (e os agressores no fundo também).No press release do álbum constava esta frase: Agora os Laibach levam a NATO onde a própria NATO tinha recusado ir. (7) Pois bem, a NATO desejosa de ir onde se tinha recusado ir, esperava o momento certo para lá ir, e isso viu-se em 1999 nos bombardeamentos à Sérvia. Os Laibach recapitulam a NATO como um regime ideológico, e ligam o sistema económico que ela representa à cultura pop (8), daí o recurso às músicas que constam neste álbum. E se estas músicas produzidas maioritariamente pela, na e para a cultura de massas ocidental capitalista são na maioria dos casos anti-bélicas os Laibach transformam-nas certeiramente em músicas agressivas, opressoras, assustadoras, realmente militaristas e pós-apocalípticas, como está presente na versão de 2525, original de Zager and Evans: (...) In the year 9595/ I'm kinda wonderin' if man is gonna be alive/ He's taken everything this old earth can give/ And he ain't put back nothing/ Now it's been ten thousand years, man has cried a billion tears/ For what, he never knew, now man's reign is through/ But through eternal night, the twinkling of starlight/ So very far away, maybe it's only yesterday (9). Este álbum faz uma analogia com o lado obsceno da retórica democrática da NATO, lado que veio a destaque em 1992 com a exposição das suas operações Gladio em Itália (10) que consistiam numa estrutura de apoio a exércitos secretos [que se] manifestou (…) diferentemente nos diferentes países, de acordo com a situação política interna de cada um. Em Itália, onde o partido comunista emergiu da guerra com prestígio pelo seu papel na resistência ao nazi-fascismo, forte intervenção na vida política do país e implantação eleitoral, o Gladio teve um forte envolvimento na manipulação e desestabilização da vida política do país, que contribuíram para o enfraquecimento do sistema democrático. (…) em Espanha, Portugal, Grécia e Turquia, com acentuado ascendente das forças armadas na vida política desses países, os exércitos secretos intervieram no combate às oposições aos respectivos regimes. (11) Os Laibach apresentavam-se então neste álbum ainda mais militaristas e bélicos que a própria NATO se apresentava na altura, mas conscientes dos interesses económicos e geopolíticos naquela zona da Europa. A escolha de elementos musicais disco não foi ingénua, segundo os Laibach os ritmos “disco” estimulam mecanismos automatistas e formatam a industrialização da consciência de acordo como o modelo de totalitarismo e produção industrial (12), a ideia que me parece que aqui está presente é que estes ritmos podem ser escapistas, até alienadores de consciência e por isso facilmente instrumentalizados de acordo com os programas dos regimes políticos (quem diz políticos diz económicos). Essa sensação está sempre presente no álbum, porque apesar das letras serem sobre a catástrofe e as razões da guerra, elas contrastam com os sons techno e jungle (antecedente do drum-n,bass) que por vezes no álbum são quase dançáveis, fazem-nos sentir deslocados da realidade e que permitem também associar toda uma cultura hedonista e de exaltação da um liberdade inócua muito em voga nos anos 90. Então os Laibach fizeram a junção perfeita da música pop anti-bélica e os interesses bélicos da NATO como diz Monroe: O tipo de música abrangida no NATO é a banda sonora de fundo da realidade dos estados da NATO, e o álbum desenhava uma ligação entre a expansão territorial da NATO como a agência militar do “capitalismo real” e a expansão territorial relacionada com a musica popular ocidental. (13)
Os assuntos tratados neste disco dos Laibach fez-me lembrar do trabalho do artista bósnio Andrej Đjerkovic que conheci recentemente através do projecto Souvenirs from Europe da editora Ghost, o trabalho em questão é uma fotografia tirada em 1997 nas ruínas do Museu Olímpico de Sarajevo com a bandeira da União Europeia no lugar de uma janela, colada com a mesma fita-cola que os habitantes dessa cidade punham nos vidros para não se partirem nos bombardeamentos durante o cerco a Sarajevo. Na fita-cola estavam impressas as palavras Fragile/ Careful. Para mim esta imagem é claramente demonstrativa das intenções da NATO e da UE em relação às repúblicas ex-jugoslavas: rapina, oportunismo e expansão territorial. Embora os Laibach no seu álbum não sejam tão categóricos e exista sempre um tom irónico e dúbio no seu trabalho, penso que esse álbum fala precisamente destas problemáticas. Na música War, à pergunta What is good for? os Laibach enumeram uma lista de boas razões: Mobilization/ Science/ Religion/ Domination/ Communication/ Teleportation (…) GM, IBM, Newsweek, CNN/ Universal European/ITT, VCR/ Industry/GM, IBM, Newsweek, CNN/ Universal European/ ITT, VCR/ NGM/Siemens, Sony/ Universal European/ Volkswagen. (13) Estas respostas demonstram bem as intenções da NATO e da União Europeia. Antes do colapso da Jugoslávia a última linha da NATO era na Alemanha e as repúblicas jugoslavas eram um alvo aliciante pela proximidade com a Rússia. Também para a União Europeia estas repúblicas economicamente estáveis e desenvolvidas podiam ser uma ameaça aos interesses de expansão capitalista, mas um alvo aliciante na medida em que eventualmente com o colapso da estrutura que as unia seriam um alvo mais fácil, e muito provavelmente futuros candidatos à integração na União Europeia (o que se verificou mais tarde), daí a inacção da comunidade internacional, que poderia ter mediatizado diplomaticamente o conflito, perante a escalada de violência e da intensificação das provocações nacionalistas (de que se aproveitaram todos os interessados desta guerra) para que as repúblicas se destruíssem mutuamente e assim fosse mais fácil intervir económica e politicamente nesses territórios tanto geográfica como economicamente tão importantes na Europa. Como se viu em 1999 houve uma agressão militar directa à Sérvia para a alegada protecção dos Kosovares albaneses causando a destruição do que restava do sistema produtivo daquele país e de inúmeras infraestruturas civis, pontes, casas, fábricas e assim a União Europeia pôde conseguir contractos para as suas empresas na reconstrução destes países, usando muitas vezes estes contractos para lavagem de dinheiros e a NATO por sua vez conseguiu aproximar-se da fronteira com a Rússia assentando as suas bases mais tarde no Kosovo. Estas questões que estão presentes no álbum NATO, tive oportunidade de aclarar durante uma conversa por e-mail com o artista Andrej Đjerkovic. E esta intenção de colonização cultural e económica está bem presente na música National Reservation: They took the whole eastern nation/ Moved us on these reservations/ Took away our ways of life/ A hand grenade, and a carving knife/ Took away our native tongue/ And taught their/ English to our young/ And all the things we made by hand/ Are nowadays made in Japan. (14)
Porque quando a guerra nos Balcãs estalou eu era uma criança, pouco consegui perceber, apenas me lembro de imagens horríveis de pessoas em fuga, filas de tractores e atrelados apinhados de gente, militares, destruição e sofrimento, e aquilo estava a acontecer na Europa, isso assustava-me mas não percebia, parecia irreal, nesse sentido foi essencial esta conversa com este artista e escutar e tentar compreender este disco dos Laibach, NATO, mas também, por exemplo a leitura do livro de banda desenhada do Joe Sacco Safe area, Goradze, ou do Regards from Serbia do Alexandre Zograf, ou do Fatherland da Nina Bunjevac, entre outros, embora muito fique por compreender, porque tudo me parece incompreensível.
Hoje sou mais crescido e, porque os mass media apenas confundem e pouco nos informam, também tenho dificuldade em perceber o que se passa na Ucrânia, no Iraque, na Síria… ou o que se passou no Chile, no Irão, na Guatemala, em Portugal…
originalmente publicado no fanzine Preto no Branco #4 em Novembro de 2014
1WANDSCHNEIDER, Miguel, Irwin, A história re-construída, Culturgest, Lisboa, 2007, p. 1
2 WANDSCHNEIDER, Miguel, Irwin, A história re-construída, Culturgest, Lisboa, 2007, p. 6
3 MONROE, Alexei, Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p. 209
4 WANDSCHNEIDER, Miguel, Irwin, A história re-construída, Culturgest, Lisboa, 2007, p. 1
5 MONROE, Alexei, Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p.239
6 WHITFIELD, Norman, War in Psychedelic Shack, Motown, Detroit, 1970
7 LAIBACH, in Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p. 239
8 MONROE, Alexei, Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p 240
9 EVANS, Rick, In the year 2525 (Exordium and Terminus), RCA (edição original em 7”), 1969
10 MONROE, Alexei, Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p 240
11 ROSA, Rui Namorado, Nato: A outra face da Nato in http://www.searanova.publ.pt/pt/1715/dossier/122/, consultado em 2 de Outubro de 2014
12 LAIBACH, in Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p. 239
13 MONROE, Alexei, Interrogation Machine, The MIT Press, Massachusetts, 2005, p 241
14 LAIBACH, National Reservation in NATO, Mute, Londres, 1994
Sonny Sharrock
Sonny Sharrock · Black Woman · Vortex · 1969 Encontrei o Sonny Sharrock (1940-1994) por acaso, estava a ler um texto na Wire
de um tal Tony Rettman em que ia descrevendo a sua descoberta da cena
hard-core e punk norte americana e depois a descoberta do free-jazz, e
equiparava a energia do hard-core com um tal Sonny Sharrock. Fui
procurar, os discos não existiam à venda e na net eram caríssimos, fiz
um download, Black Woman, foi o disco que saquei. Não consegui
ouvir todas as músicas imediatamente, algumas demoraram a inscrever-se.
Não são todas avassaladoras no início e isso custou-me, porque não
estava a encontrar a fúria do hard-core facilmente. Mas com pouco
esforço elas entranharam-se, e de que maneira. Sonny Sharrock é um
guitarrista com uma aproximação ao instrumento muito característica, já
tinha ouvido a sua guitarra, mas não sabia onde. Afinal tinha sido no
disco Tauhid de Pharoa Sanders, se o escutarmos com atenção vamos encontrar aí algumas semelhanças com a guitarra de Black Woman.
Este é um álbum demolidor, orgasmicamente demolidor. Aqui guitarra de
Sonny Sharrock e todo o conjunto de instrumentos é de facto muito forte,
mas para além disso a energia que Linda Sharrock (1947), a então mulher
de Sonny, emprega neste disco é de uma ferocidade transcendental, de
uma entrega corpórea incrível. É a voz elevada a instrumento, que o é
sempre, mas aqui está num nível que se afasta do acompanhamento, é
verdadeiramente avassaladora. Em todas as 4 músicas deste álbum em que
aparece as voz de Linda, apenas Bialero, contém palavras, nas
restantes a voz é apenas som, contribuindo, na minha opinião para que a
voz seja realmente elevada a instrumento, porque não ilustra a música
com palavras, com ideias e imagens, é puramente sonora. E mais que a
voz, sentimos a presença de um corpo no seu todo, é todo um corpo de uma
mulher que canta, que se torna quase insuportável, a tenção que há no
grito é de raiva, de catarse mas também é sexual, e isso é tão poderoso,
tão forte que quase sentimos que não devíamos estar a ouvir esta voz.
Na música Portrait of Linda in Three Colours, All Black
temos o expoente máximo do que se descreve atrás no texto, é uma música
com um ritmo quase dançável, à medida que vai evoluindo parece que
estamos a presenciar um ritual de ascese, os instrumentos entram
formando uma malha instrumental densa, levando tudo à frente, depois a
voz de Linda impõe-se e essa energia é exponencialmente catártica. Peanut
é uma música abismal, a voz de Linda parece que vai caindo num vórtice
juntamente com os restantes instrumentos, em cascata. Este é um disco de
free-jazz furioso, com uma energia visceral, mas a música Bialero
é de uma doçura cândida, luminosa, de uma beleza cristalina que
contrapõe todo o caos em que aparentemente está mergulhado o resto do
disco. Eu não sei se a ideia de gravar um disco chamado Black Woman
foi de Sonny ou de Linda, de facto o final dos anos 60 do século
passado foram anos de grandes lutas dos Black Panthers contra o sistema
segregacionista dos EUA, e este álbum julgo que vem de encontro a essa
luta, mas mais que ser um álbum com músicos afro-americanos, é um disco
que se emancipa e coloca a mulher negra no centro da questão, e isso é
admirável. Se este é o grito da mulher negra, é um grito extremo, livre e
poderoso! Este é um álbum que apesar de todo o noise, de toda a
amalgama instrumental é um álbum espiritual, emocional que recupera
muita da tradição do blues, dos ritmos africanos, e na minha opinião é
um encontro muito feliz, este.publicado originalmente no fanzine Cleópatra #10 em Março de 2017
Recorri, obviamente à internet, para sacar o disco, e para me informar melhor sobre ele.
1º episódio
Elis Regina . 20 anos Blue, Elis, Phonogram, 1972
Jair Rodrigues . Viola Enluarada, Viola Enluarada / Chão, Philips, 1968 retirada da compilação Os maiores sucessos do Brasil, Reader’s digest, 1980
Gilberto Gil . Era Nova, Refavela, Philips, 1977
Sandra Sá . Olhos Coloridos, Sandra Sá, RGE, 1982
Solange . Rise, A seat at the table, Columbia, 2016
Holger Czukay & U-she . Child, Time and Tide, Dignose, 2001
Gil Scott-Heron . Me and the devil, I’m new here, XL Records, 2010
Hype Williams . ??
Lena d’Água . Liamba, Perto de Ti, Valentim de Carvalho, 1982
Roxy Music / Brian Ferry . Over you, Street Life - 20 Great Hits, EG, 1986
Jarboe with Larry Seven . Liquid Bébé Psychedalia, Beautiful People Lda, 1993 retirado da reedição da Atavistic de 2004
A Musical Anthology Of The Orient - Afghanistan . Ancient Chant of Kabul, Bärenreiter-Musicaphon / Unesco, ??
Marguerite Taos Amrouche . Chant d’exil, Chants Berbères De Kabylie, BAM, 1975
Meredith Monk . Fields / Clouds, Book Of Days, ECM, 1990
Penny Rimbaud . Poem 12, Poem 15 e Poem 18, Acts of Love, Crass Records, 1984
Else Marie Pade . Illustrationer: Kong Vinter, 1995 extraído da compilação Electronic Works 1958-1995, Important Records, 2014
Flux of Pink Indians . The Stonecutter, Uncarved Block, One Little Indian, 1986
Brian Eno . Shadows, Ambient 4 (On Land), Editions EG, 1982
Steve Reid Ensemble . Drum Story, Spirit Walk, Soul Jazz Records, 2005
Matana Roberts . How must would you cost, Coin Coin chapter One: Gens de Couleur Libres, Constellations Records, 2011
sábado, 27 de janeiro de 2018
Mal D'vinhos
Mal D’vinhos · Disk’é cultura · pimba’s autoroute “discos e petiscos” · 2004 Os Mal d’vinhos nasceram no princípio dos anos 2000 algures entre as Caldas da Rainha e o Bombarral. Apenas vi dois concertos (de que me recorde), um no Campo de futebol da Mata, nas Caldas da Rainha, que não tinha som, as vozes do Smith e Nadine não se ouviam, o som da bateria comia o acordeão e a guitarra, mas isso não impediu de estar cheio e de as pessoas dançarem e cantarem. O outro, acho que foi um dos últimos concertos da banda, numa discoteca no centro da cidade, ouvia-se melhor, e também estava cheio. Os Mal d’vinhos eram conhecidos por tocar em restaurantes, garagens, tascas e bailes improvisados. Infelizmente não tenho nenhum CD deles, tenho um CD-r copiado de um outro da Susana Borges (que também ele é um CD-r, mas oficial, ou seja adquirido com a capa aqui reproduzida). Os Mal d’vinhos eram compostos por vários músicos: Argénis no acordeão, Huguinho na bateria, João Buga na guitarra, José Smith na voz, Luis Carreira no Baixo, o Mané nos teclados e a Nadine Jacinto também na voz. Para mim os mal D'vinhos confundiam-se com o Focolitus, para além de alguns membros partilhares ambos os projectos musicais, toda a estética era idêntica, para além de que ambas as bandas escapavam ao facilitismo e tentavam mesclar vários géneros musicais sempre com um pendor politizado bastante marcado relacionado com uma atitude DIY e punk, até anarco-punk no caso dos Focolitus. Esta banda pretendia ser um grupo de baile de música popular ligeira. Não conseguiram, como era óbvio, nunca iriam conseguir, aliás. Não conseguiriam porque a música que praticavam estava a léguas de ser suportada pelo público desse tipo de acontecimento, ainda que hajam músicas que poderiam funcionar nesse contexto como Dizem que és ou Música estranjeira do disco Voto em branco porque não há tinto, que são músicas produzidas com algum brio que as pudesse catapultar para esse mundo e porque de facto parecem ter uma estrutura muito próxima da música de conjuntos de baile como os Diapasão ou que fazem mesmo lembrar alguns temas de um Dino Meira ou de um José Malhoa, ou até de um Quim Barreiros. Ainda assim esta música não iria ser suportada pelo público dos bailes e festas da aldeia. Como Os Mal d,vinhos diziam na música A dignidade de um artista: ¶ Mas porque eu sempre achei que poesia é para aleijar/ a minha mercadoria eles não quiseram comprar. Assim, com as letras ácidas e cheias de humor nenhuma pessoa que tenha estima ou frequente bailes de música pimba iria conseguir aceitar tamanha ironia, a não ser que estivesse completamente embriagada. De qualquer maneira hoje em dia a música das festas e baile das zonas rurais que os Mal d’vinhos ironizam (embora a música ligeira atravesse vários espectros sociais e diferentes zonas demográficas e geográficas) está extremamente influenciadas pela música que foi subindo do hemisfério Sul para aqui, falamos aqui do kizomba, do funaná, do kuduro que vieram destronar aquela música popular que se desenvolveu nos anos 80 e 90 e se cristalizou no termo Pimba. Hoje em dia a música pimba é uma espécie de multiculturalismo disfarçado e quem não perceber isso está a fantasiar com aquilo que é um baile de aldeia. Um baile de aldeia hoje já tem DJs residentes, uma tenda de música electrónica até de manhã, esquemas de dança, zumba, tanto se tocam as músicas dos Xutos e Pontapés como do Nelson Freitas, as bandas apresentam um espectáculo verdadeiramente multimédia com projecções de video e outras engenhocas tecnológicas de ponta, ou seja as festas da aldeia são muito mais heterogénias na fauna e nos espéctaculos do que há 15 anos, mas isso não significa, infelizmente, que tenham subido o patamar da qualidade. Voltemos aos Mal d’vinhos, este disco, Disk´é Kultura mistura muito bem a energia e a sonoridade do punk, e alguns elementos da tal música ligeira portuguesa. Mas essa mistura é feita com esmero, com inteligência, não vive da piada fácil, da brejeirice ou da misoginia irónica. Esta estratégia de tentativa de penetração nos mecanismos da industria da música popular ligeira, mimetizando em certos aspectos as suas estruturas musicais mas com o intuito de fazer uma crítica mordaz e sarcástica dessa própria indústria ou seja, de a corroer por dentro, é uma coisa que me fascina, ainda que na verdade este projecto não tenha conseguido penetrar verdadeiramente nessa esfera capitalista. As músicas deste disco falam sobre a tacanhez, a avareza e os interesses políticos, como em Ambiçum Pulítica ou Baile da Bófia, a decadência da indústria musical que só produz alienação como em A dignidade de um artista, a celebração da estética Tunnig como exponencial de um machismo (frustrado). Preste-se atenção, por exemplo, à letra da música Tunning, Tunning: ¶ Sou um tipo popular/ Sempre a abrir, civilizado / Não percebo quando ela diz / que sou um bocado frustrado (…) Seguia pela estrada fora com os alerons ao vento/ Para por estas luzes, vendi meu querido jumento/ O meu mega bote chamado Viagra/ extensão do meu sexo que já não consagra (…) Conheço todos os bordeis, de qualquer Nacional/ O que é que querias bacano? É assim que se faz em Portugal. No conteúdo das letras percebe-se que os Mal d’vinhos nunca poderiam resultar no contexto dos bailes de música ligeira, ainda assim conseguiram (num contexto de um público alternativo) fazer potenciais megasucessos de Verão, com letras e melodias catchy que surpreendem pela sua incrível capacidade de se trautearem e de se colarem ao ouvido. Experimentem ouvir este disco e reparem se depois não vão ficar a cantarolar os refrões. Para além da música outra coisa que sempre me fascinou foi a imagem gráfica associada a este projecto, desde os cartazes às capas dos discos. Parece-me que quem os produzia eram o José Smith e a Nadine Jacinto Rodrigues. Extremamente corrosivas, as colagens e instalações de Nadine, de que me lembro, recuperavam a estratégia Dadaísta e encontramos ligações com as colagens de Hannah Hoch e também com a instalação de ocupação espacial de Kurt Schwitters, a Merzbau. Smith usava a ilustração e colagens que davam uma estética punk cómica ao material gráfico da banda, aliás podemos ver o trabalhos dele nos cartazes para a ATR, no Jornal Mapa ou nas várias BDs que tem feito para ChilicomCarne, ou auto-editadas. Esta obsessão pelo preenchimento do espaço com uma estética punk, funcionavam particularmente bem com a música, que se apresenta orgânica, cómica, popular, corrosiva/corroída, mas sempre, sempre apresentada de maneira inteligente, sem ceder à parvoíce bacoca e a mensagens vazias. Obrigatório! publicado originalmente no fanzine Cleópatra #10 em Março de 2017
Recorri à internet para informações genéricas sobre os membros da banda e para ver os vídeos de concertos no Youtube.















